Rubem Braga, inventor da crônica moderna brasileira
Publicada em 12 de janeiro de 2015
O escritor, que faleceu em 1990, em visita a Cachoeiro
Considerado
o inventor da crônica brasileira moderna, o cachoeirense Rubem Braga
(1913-1990) completaria 102 anos nesta segunda-feira (12). Filho de
Raquel Coelho Braga e Francisco Carvalho Braga, primeiro prefeito de
Cachoeiro de Itapemirim, iniciou seus estudos na cidade.
Iniciou a faculdade de Direito no Rio de Janeiro, mas se formou em Belo Horizonte, em 1932, depois de ter participado, como repórter dos Diários Associados, da cobertura da Revolução Constitucionalista, em Minas Gerais.
Foi correspondente de guerra do Diário Carioca na Itália, onde escreveu o livro "Com a FEB na Itália", em 1945, sendo que lá fez amizade com Joel Silveira. De volta ao Brasil morou em Recife, Porto Alegre e São Paulo, antes de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro, primeiro numa pensão do Catete, onde foi companheiro de Graciliano Ramos; depois, numa casa no Posto Seis, em Copacabana, e, por fim, na mítica cobertura da Rua Barão da Torre, em Ipanema.
Seu primeiro livro, "O Conde e o Passarinho", foi publicado em 1936, quando o autor tinha 22 anos, pela Editora José Olympio. Na crônica-título, escreveu: "A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde." De fato, quase tanto como pelos seus livros, o cronista ficou famoso pelo seu temperamento introspectivo e por gostar da solidão. Como escritor, Rubem Braga teve a característica singular de ser o único autor nacional de primeira linha a se tornar célebre exclusivamente através da crônica, um gênero que não é recomendável a quem almeja a posteridade.
Com Fernando Sabino e Otto Lara Resende, Rubem Braga fundou, em 1968, a editora Sabiá, responsável pelo lançamento no Brasil de escritores como Gabriel Garcia Márquez, Pablo Neruda e Jorge Luis Borges.
Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza."
A chave para entendermos a popularidade de sua obra, toda ela composta de volumes de crônicas sucessivamente esgotados, foi dada pelo próprio escritor: ele gostava de declarar que um dos versos mais bonitos de Camões ("A grande dor das coisas que passaram") fora escrito apenas com palavras corriqueiras do idioma. Da mesma forma, suas crônicas eram marcadas pela linguagem coloquial e pelas temáticas simples.
Como jornalista, Braga exerceu as funções de repórter, redator, editorialista e cronista em jornais e revistas do Rio, de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. Foi correspondente de "O Globo" em Paris, em 1947, e do "Correio da Manhã"; em 1950. Amigo de Café Filho (vice-presidente e depois presidente do Brasil) foi nomeado Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago, no Chile, em 1953. Em 1961, com os amigos Jânio Quadros na Presidência e Affonso Arinos no Itamaraty, tornou-se Embaixador do Brasil no Marrocos. Mas Braga nunca se afastou do jornalismo. Fez reportagens sobre assuntos culturais, econômicos e políticos na Argentina, nos Estados Unidos, em Cuba, e em outros países. Quando faleceu, era funcionário da TV Globo.
Rubem Braga morreu no Rio, em 19 de dezembro de 1990, deixando mais de 15 mil crônicas escritas em mais de 62 anos de jornalismo.
Bienal
Em homenagem ao cronista, o município de Cachoeiro promove a Bienal Rubem Braga, um dos maiores e mais importantes eventos culturais do Espírito Santo. A próxima edição, em 2016, já é planejada pela prefeitura e pela Associação Cultural Casa dos Braga, criada em 2014. O cronista dá nome, também, à lei de incentivo cultural do município, que já financiou diversos projetos culturais.
Iniciou a faculdade de Direito no Rio de Janeiro, mas se formou em Belo Horizonte, em 1932, depois de ter participado, como repórter dos Diários Associados, da cobertura da Revolução Constitucionalista, em Minas Gerais.
Foi correspondente de guerra do Diário Carioca na Itália, onde escreveu o livro "Com a FEB na Itália", em 1945, sendo que lá fez amizade com Joel Silveira. De volta ao Brasil morou em Recife, Porto Alegre e São Paulo, antes de se estabelecer definitivamente no Rio de Janeiro, primeiro numa pensão do Catete, onde foi companheiro de Graciliano Ramos; depois, numa casa no Posto Seis, em Copacabana, e, por fim, na mítica cobertura da Rua Barão da Torre, em Ipanema.
Seu primeiro livro, "O Conde e o Passarinho", foi publicado em 1936, quando o autor tinha 22 anos, pela Editora José Olympio. Na crônica-título, escreveu: "A minha vida sempre foi orientada pelo fato de eu não pretender ser conde." De fato, quase tanto como pelos seus livros, o cronista ficou famoso pelo seu temperamento introspectivo e por gostar da solidão. Como escritor, Rubem Braga teve a característica singular de ser o único autor nacional de primeira linha a se tornar célebre exclusivamente através da crônica, um gênero que não é recomendável a quem almeja a posteridade.
Com Fernando Sabino e Otto Lara Resende, Rubem Braga fundou, em 1968, a editora Sabiá, responsável pelo lançamento no Brasil de escritores como Gabriel Garcia Márquez, Pablo Neruda e Jorge Luis Borges.
Segundo o crítico Afrânio Coutinho, a marca registrada dos textos de Rubem Braga é a "crônica poética, na qual alia um estilo próprio a um intenso lirismo, provocado pelos acontecimentos cotidianos, pelas paisagens, pelos estados de alma, pelas pessoas, pela natureza."
A chave para entendermos a popularidade de sua obra, toda ela composta de volumes de crônicas sucessivamente esgotados, foi dada pelo próprio escritor: ele gostava de declarar que um dos versos mais bonitos de Camões ("A grande dor das coisas que passaram") fora escrito apenas com palavras corriqueiras do idioma. Da mesma forma, suas crônicas eram marcadas pela linguagem coloquial e pelas temáticas simples.
Como jornalista, Braga exerceu as funções de repórter, redator, editorialista e cronista em jornais e revistas do Rio, de São Paulo, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife. Foi correspondente de "O Globo" em Paris, em 1947, e do "Correio da Manhã"; em 1950. Amigo de Café Filho (vice-presidente e depois presidente do Brasil) foi nomeado Chefe do Escritório Comercial do Brasil em Santiago, no Chile, em 1953. Em 1961, com os amigos Jânio Quadros na Presidência e Affonso Arinos no Itamaraty, tornou-se Embaixador do Brasil no Marrocos. Mas Braga nunca se afastou do jornalismo. Fez reportagens sobre assuntos culturais, econômicos e políticos na Argentina, nos Estados Unidos, em Cuba, e em outros países. Quando faleceu, era funcionário da TV Globo.
Rubem Braga morreu no Rio, em 19 de dezembro de 1990, deixando mais de 15 mil crônicas escritas em mais de 62 anos de jornalismo.
Bienal
Em homenagem ao cronista, o município de Cachoeiro promove a Bienal Rubem Braga, um dos maiores e mais importantes eventos culturais do Espírito Santo. A próxima edição, em 2016, já é planejada pela prefeitura e pela Associação Cultural Casa dos Braga, criada em 2014. O cronista dá nome, também, à lei de incentivo cultural do município, que já financiou diversos projetos culturais.
A Traição
das Elegantes – crônica de Rubem Braga
“As fotos
estão sensacionais, mas algumas das elegantes não souberam posar” – confessou
Ibrahim Sued a respeito da reportagem em cores sobre as “Mais Elegantes de
1967” publicada em Manchete.
A verdade é mais grave, e todos a sentem: as “Mais
Elegantes” estão às vezes francamente ridículas, às vezes com um ar de boboca e
jeca, às vezes simplesmente banais. A culpa não será de Ibrahim, nem do
fotógrafo, nem da revista, nem das senhoras; o que aconteceu é misterioso,
desagradável, mas completamente indisfarçável: alguém ou, digamos, Algo, Algo
com maiúscula, fez uma brincadeira de mau gosto, ou talvez, o que é pior, uma
coisa séria e não uma brincadeira; como se fossem as três palavras de
advertência que certa mão traçou na parede do salão de festim de Baltazar;
apenas não escreveu nas paredes, mas nas próprias figuras humanas, em seus
olhos e semblantes, em suas mãos e seus corpos: “Deus contou o dia de teus
reinos e lhes marcou o fim; pesado foste na balança, e te faltava peso;
dividido será teu reino”.
Oh, não, eu não quero ser o profeta Daniel da Rua
do Riachuelo; mas aconteceu alguma coisa, e essas damas que eram para ser como
símbolos supremos de elegância e distinção, mitos e sonhos da plebe, Algo as
carimbou na testa com o “Manê, Tekel, Farés” da vulgaridade pomposa e fora de
tempo. Oh, digamos que escapou apenas uma e que há uma outra que não está assim
tão mal. Mas as doze restantes (pois desta vez são catorze) que aura envenenada
lhes tirou o encanto, e as deixou ali tão enfeitadas e tão banais, tão pateticamente
sem graça, expostas naquelas páginas coloridas como risíveis manequins em uma
vitrina de subúrbio?
Que aconteceu? Ninguém pode duvidar da elegância
dessas damas, mesmo porque muitas não fazem outra coisa a não ser isto: ser
elegantes. Elas são parte do patrimônio emocional e estético da Nação, são
respeitadas, admiradas, invejadas, adoradas desde os tempos de “Sombra”; vivem
em nichos de altares invisíveis, movem-se em passarelas de supremo prestigio
mundano – e subitamente, oh! ai! ui! um misterioso Satanás as precipita no
inferno imóvel da paspalhice e do tédio, e as prende ali, com seus sorrisos
parados, seus olhos fixos a fitar o nada, estupidamente o nada – quase todas,
meu Deus, tão “Shangai”, tão “Shangai” que nos inspiram uma certa vergonha – o
Itamarati devia proibir a exportação desse número da revista para que não se
riam demasiado de nós lá fora!
Não sou místico; custa-me acreditar que algum
Espírito Vingador tenha feito esse milagre contrário. A culpa será talvez da
“Revolução”, que tornou os ricos tão seguros de si mesmos, tão insensatos e
vitoriosos e ostentadores e fátuos que suas mulheres perderam o desconfiômetro,
e elas envolvem os corpos em qualquer pano berrante que melífluos costureiros
desenham e dizem – “a moda é isto” – e se postam ali, diante da população cada
vez mais pobre, neste país em que mínguam o pão e o remédio, e se suprimem as
liberdades – coloridas e funéreas, ajaezadas, e ocas, vazias e duras, sem
espírito e sem graça nenhuma.
Há poucos meses, ao aceno de uma revista americana,
disputaram-se algumas delas a honra de serem escolhidas, como mocinhas de
subúrbio querendo ser “misses”, e no fim apareceram numas fotos de publicidade
comercial, prosaicamente usadas como joguetes de gringos espertos. Desta vez é
pior: não anunciaram nada a não ser a inanidade de si mesmas tragicamente
despojadas de seus feitiços.
Direi que a derrota das “Mais Elegantes” não
importa… Importa! As moças pobres e remediadas, a normalista, a filha do
coronel do Exército que mora no Grajaú, a funcionaria da coletoria estadual de
Miracema, a noiva do eletricista – todas aprenderam a se mirar nessas deusas, a
suspirar invejando-as, mas admirando-as; era o charme dessas senhoras, suas
festas, suas viagens, suas legendas douradas de luxo que romantizavam a riqueza
e o desnível social; eram aves de luxo que enobreciam com sua graça a injustiça
fundamental da sociedade burguesa.
Elas tinham o dever de continuar maravilhosas,
imarcescíveis, magníficas. É possível que pessoalmente assim continuem; mas houve
aquele momento em que um vento escarninho as desfigurou em plebéias enfeitadas,
em caricaturas de si mesmas, espaventosas e frias.
Quero frisar que dessas senhoras são poucas as que
conheço pessoalmente, e lhes dedico a maior admiração e o mais cuidadoso
respeito. Não há, neste caso, nenhuma implicação pessoal. Estou apenas ecoando
um sentimento coletivo de pena e desgosto, de embaraço e desilusão: nossas
deusas apareceram de súbito a uma luz galhofeira, ingrata e cruel; sentimo-nos
traídos, desapontados, constrangidos, desamparados e sem fé.
É duro confessar isto, mas é preciso forrar o
coração de dureza, porque não sabemos se tudo isso é o fim de uma era ou o
começo de uma nova era mais desolada e difícil de suportar.